jennifer egan
abril 12th, 2012 § Deixe um comentário

“Olhei para a cidade lá embaixo. Sua extravagância me pareceu um desperdício, como o petróleo jorrando de dentro da terra ou alguma coisa preciosa que Bennie estivesse juntando para si e usando até o fim para ninguém mais poder pegar. Pensei: se eu tivesse uma vista como esta para olhar todos os dias, teria energia e inspiração para conquistar o mundo. O problema é que, quando você mais precisa de uma vista, ninguém lhe dá.
Respirei fundo e virei-me para Bennie.
- Saúde e felicidade para você, irmão – falei, e sorri para ele pela primeira e única vez: deixei meus lábios se abrirem e se esticarem para trás, algo que raramente faço porque perdi boa parte dos dentes de ambos os lados da boca. Os que tenho são grandes e brancos, então as falhas pretas são uma grande surpresa. Vi o choque no rosto de Bennie quando ele reparou. E de repente me senti forte, como se algum equilíbrio no quarto tivesse sido modificado e todo o poder de Bennie – a mesa, a vista, a cadeira que fazia levitar – de repente me pertencesse. Assim é o poder; todos o sentem ao mesmo tempo”.
‘A Visita Cruel do Tempo‘, Jennifer Egan (atualmente, único ser humano vivo capaz de fazer com que eu desrespeite a sagrada instituição do matrimônio)
molejo do alabama
abril 11th, 2012 § Deixe um comentário

É provável que, entre apresentações garageiras e sessões de gravação no porão frustradas pelo ruído das rodovias, os membros do Alabama Shakes tenham vislumbrado alguma possibilidade de sucesso significativo. No entanto, é difícil acreditar que fossem otimistas o bastante para anteciparem tamanha receptividade .
As coisas estão acontecendo com a velocidade de um riff de guitarra para esse quarteto formado em Athens, cidadezinha do estado que batiza a banda. Uma série de apresentações efusivas, críticas elogiosas de blogs hypados, entrevistas, aparições em programas da TV americana, shows com bilheteria esgotada e um convite para abrir seis shows da aguardadíssima nova turnê solo de Jack White, tornaram os Shakes uma das mais talk-abouted bands da temporada.
Felizmente, nesse caso, há algo além de todo o bafafá. Boys and Girls, debut da banda, é um disco sem vernizes, analógico, feito por músicos pra lá de competentes, para quem gosta do bom e velho rock’n roll. Longe de pertencer ao grupo de bandelhas engraçadamente sarcásticas e forçadamente retrôs, o Shakes nitidamente respeita e acredita no som no qual baseiam o seu próprio e, por isso, soam reais todo o tempo.
Brittany Howard, frontman, guitarrista e songwriter, possui uma voz magnética e comovente que remete a alguns dos timbres mais marcantes da cultura-pop, como Aretha Franklin e Janis Joplin, ao mesmo tempo em que expõe a rudeza de vozes mais contemporâneas como Amy Winehouse e o próprio Jack White. As letras, galopantemente confessionais, são cantadas com uma entrega quase sempre dramática (recomendo muito conferir algumas apresentações ao vivo), em meio a inúmeras referências rasgadas ao Creedence Clearwater Revival e Otis Redding, além de outras imensidões do cânone do rock e do R&B setentista.
Longe de ter a estrutura das grandes labels, as sessões de gravação do disco, segundo os próprios, foram feitas ao vivo em um pequeno estúdio em Nashville, entre apresentações em pequenos festivais e bares nos quais a banda alternava versões covers de bandas clássicas com algumas de suas canções originais. A habilidade musical do Alabama Shakes e esse esquema de produção rudimentar são os principais responsáveis pela sonoridade suja e, ao mesmo tempo, classy do disco que, apesar de não capturar bem a energia das apresentações da banda, é um dos mais favoritáveis de um ano já repleto de grandezas, o que não é pouco para quem acabou de cruzar as fronteiras entre a aceitação local e o sucesso.
Abaixo, é possível conferir os Shakes mandando ver em ‘Hold On’, faixa de abertura do Boys and Girls.
conduta de risco
março 28th, 2012 § Deixe um comentário

Gosto de artistas que se expõem ao risco. Gosto de vê-los em situações onde a probabilidade de sucesso divide chances matemáticas com a possibilidade de uma fratura exposta de seus egos e/ou, menos exageradamente, com um eventual vexame diante de seus pares e admiradores. Dito isso, é formidável que Daniel Rossen, songwriter do Grizzly Bear e corresponsável por um dos discos mais sensacionais dos últimos anos (estamos falando do absolutamente genial Veckatimest, óbvio), tente construir algo além, uma espécie de universo paralelo frio e solitário concebido por e para ele mesmo.
Silent Hour/Golden Mile EP é um projeto que avança em rota de colisão aos inúmeros matizes presentes nos trabalhos anteriores desse dude. Rossen aqui expõe seus ossos, ao contrário do que ocorre quando está coberto pelas várias camadas de arranjos e orquestrações típicas das composições do Grizzly Bear ou pela fumação psicodélica do Department of Eagles, projeto que, confesso, conheci há pouco (e já recomendo muitíssimo). Nessa nova empreitada, ele constrói um disco cru e mesmérico, com violões e pianos que, muitas vezes, mal se pronunciam, o que somente engrandece os momentos de maior eloquência da voz e das guitarras que, devo dizer, são um dos maiores trunfos de Rossen.
Em ‘Up On High’, faixa de abertura, Rossen canta versos que entregam quase todo o mood do disco (In this big empty room/You finally feel free to sing to me). ‘Return to Form’, uma das melhores faixas do ano, tem um breakdown tão absurdamente surpreendente que dizer qualquer coisa sobre ela soa como um spoiler. ’Saint Nothing’ segue com pianos quase monotemáticos, enquanto Rossen se entrega de vez às profundezas do abismo criado por ele mesmo (Leave the throne and mind so clear/You feel no pain/An end so near/You taste the blood). ‘Silent Song’ e ’Golden Mile’ são o mais próximo de qualquer coisa que o Elliot Smith faria se ainda habitasse essa dimensão.
Com canções sobre personagens vulneráveis, solitários e com um passado por demais obscuro (Never fear/I know there’s work here to redeem you/Still It’s clear/There’s not a word, a word could save you), Silent Hour/Golden Mile traz a genialidade de Veckatimest desnuda, em um formato cuja crueza é o princípio ativo. Com somente cinco músicas, Daniel Rossen não só prova que consegue tocar um projeto paralelo relevante, como eleva em vários anos-luz o padrão de qualidade musical do ano corrente, o que quadruplica a expectativa por sobre os outros trabalhos vindouros do rapaz, incluindo aí o queridão Grizzly Bear.
Abaixo, Rossen manda ‘Saint Nothing’, uma das minhas favoritas da bolacha nova. Só no sapatinho.
longa estrada para lugar nenhum
fevereiro 29th, 2012 § Deixe um comentário

Foi só terminar a primeira audição desse grande disco que é o Break It Yourself , novíssima cria do multifacetado (uh!) Andrew Bird, para ver, daqui do alto dos dez andares de meu modesto apartamento, aqueles velhos detratores se agitando em seus covis para fazer a fácil utilização de adjetivos, como autoindulgente, exagerado e entediante.
Esse novo trabalho de Andrew Bird requer rendição completa. Algo parecido com aquela sensação letárgica que nos acompanha quando olhamos pela janela de um ônibus enquanto fazemos uma longa viagem. Bird constrói nesse disco espaços abertos, enormes e, muitas vezes, cinzentos, que exigem do ouvinte atenção quase religiosa. E não uso esse adjetivo à toa, uma vez que algumas faixas parecem evocar algo assim.
E, digo mais, se esse disco não possui canções tão notáveis quanto em The Mysterious Production of Eggs e Noble Beast (que a casa gosta muito mesmo), isso se deve em boa parte pela evidente intenção de se criar um álbum que avança sereno como uma oração. Considerando isso, qual não é a surpresa quando nos deparamos com faixas brilhantes e coloridas, como ‘Near Death Experience Experience’, ‘Fatal Shore’ e ‘Lusitania’, no meio dessa paisagem agreste e impassível criada por Bird?
Com 14 faixas e 60 minutos, certamente sobrarão queixas relacionadas à extensão do disco e às pretensões de Break It Yourself. No entanto, a cada audição fica mais claro que, assim como em um filme de Malick, não há um único “take” a se subtrair. O que temos aqui é uma obra longa e contemplativa, repleta de idas e vindas a lugar nenhum (o que, nesse caso, não é demérito), que se recusa a ser ouvida entre uma checada no Twitter e uma mordida no sanduíche de mortadela.
rápido e certeiro
fevereiro 16th, 2012 § Deixe um comentário

Há pouco mais de um ano, o Tennis fazia seu debut com Cape Dory, sem muito estardalhaço por essas bandas, mas arrebatando pequenas legiões de desavisados que se depararam inadvertidamente com a sonoridade repleta de maneirismos da banda. Young And Old, segundo trabalho do casal Patrick Riley e Alaina Moore, apesar de recorrer aos mesmos truques (nesse caso, repaginar o pop feito pelas girl-bands das décadas de 50 e 60), traz diferenças que o fazem um trabalho sensivelmente superior.
A produção mais que luxuosa de Patrick Karney, batera do Black Keys, parece ter canalizado e ampliado os horizontes do som do duo (agora um trio, com a entrada do baterista James Barone). Nas palavras de Alaina Moore, vocalista da banda, o histórico “sujo e bluesy” de Karney contribuiu para levar a sonoridade da banda adiante. E é a mais pura verdade.
A voz doce e cristalina de Moore, registrada mais uma vez no esquema lo-fi, soa menos exagerada e mais elaborada que no disco anterior. Esse cuidado garante alguns dos melhores momentos do disco, como no caso das faixas ‘Origins’ e ‘High Road’, que são uma espécie de girly version daquilo que melhor foi feito pelo Strokes. A maior presença dos pianos e guitarras, além do já mencionado acréscimo de um baterista, preenchem melhor o som da banda, que soava mais limitado e menos confiante no disco anterior.
Como em Cape Dory, doses galopantes de açúcar ainda podem ser encontradas, caso da faixa ‘Dreaming’, que sobrecarrega a voz de Moore com toneladas de reverb, o que faz com que pareça que foi gravada do interior de uma masmorra. Uma falha completamente perdoável, se considerarmos a qualidade do disco como um todo.
Young And Old , apesar do pouco tempo que o separa de seu antecessor, vem com um recheio mais elaborado, o que faz valer o tempo de atenção dispendida. Se por um lado, o Tennis se joga sem pudor no esquema de reinventar sonoridades passadas, sem com isso buscar algo que o identifique no meio da multidão, por outro diverte pra caramba, o que pode ser suficiente para alguns de nós.
Abaixo, vídeo oficial da strokeana “Origins”, uma das melhores faixas do disco.
lapso de coerência
fevereiro 5th, 2012 § 2 Comentários

Esse sim é ateu. Por que tem que ser muito ateu pra fazer isso.
Não acredito nessa nova categoria de ateus neófitos e histéricos que proliferam nas redes sociais feito mosca em açougue. Nada contra a exposição democrática de ideias. Mas pensemos bem já que estamos aqui: o que é um ateu? Alguém que não acredita na existência de entidades metafísicas de natureza divina? Sendo assim, não parece contraproducente desperdiçar tanto tempo e paciência alheia defendendo ideias acerca de algo que não existe? Nesse caso, aquela resignação sóbria e absolutamente discreta não seria uma atitude mais compatível e elegante?
Sim, porque se alguém me dissesse que acredita em gnomos, por exemplo, e tentasse me convencer da existência e da importância deles, e também tentasse falar sobre os mini-cavalos nos quais eles surgem montados, eu simplesmente ignoraria e procuraria fazer algo mais útil, como lavar a trouxa de roupa suja que se acumula ali atrás. Parece sensato desperdiçar um segundo que seja defendendo meu direito de não acreditar em gnomos e em mini-cavalos? Não. Mas há quem ache que é necessário livrar o mundo da alienação, essas coisas. O dedo acusador da incoerência está apontado em riste pra você, meu amigo falastrão.
Hoje, acreditem vocês, existe até uma confraria de defesa do direito de ser ateu, a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos. Criaram uma entidade de classe para defender os direitos individuais de quem não quer acreditar em nada? Mas se não há nada em que acreditar, então para que o direito? É um ateu ali atrás, baixando a cabeça envergonhado? Já falei sobre os móveis empoeirados aqui de casa?
Conheci um único legítimo ateu, em toda minha vida. Era um sujeito velho e discreto da faculdade de filosofia que nunca cheguei a concluir. Quando instado a opinar sobre o assunto, chegava a assustar, tão absoluta era a incredulidade daquele senhor. Costumava dizer que sobre o tema não há muito a se dizer, pois nunca há muito a dizer sobre algo que não existe. Quanta sensatez! E quando a discussão era acalorada, quase o ouvíamos respirar fundo, entediado que estava. Tanta coerência, ainda hoje, deixa-me atordoado.
A respeito daquele homem, eu tenho pelo menos uma certeza: o tema do teísmo não o interessava nem de longe, o que parece óbvio se considerarmos que tal conceito e a visão idílica de unicórnios pastando na terra-média davam na mesma pra ele. Daí que concluo que legítimo desinteresse é aspecto mandatório para qualquer ateu de vergonha.
Por essa razão, quando vejo esse tipo de animosidade eclodindo nas redes sociais desconfio. O calo da auto-afirmação lateja forte no ego de alguns. E, digo mais: tenho certeza de que esses fanfarrões serão os primeiros a se prostrarem assustados, ajoelhados e orando febrilmente o pai-nosso, a ave-maria e o saravá-meu-pai, quando ouvirem os trovões e raios tombarem dos céus, apenas para constatarem em seguida, fulminados pela vergonha, que a meteorologia fez previsão de tempo ruim para o fim de semana.
voo rasante #1: janeiro, viagem inaugural
fevereiro 2nd, 2012 § Deixe um comentário

De agora em diante, ao final de cada mês, postarei uma rápida retrospectiva de discos que a casa ouviu no período, aprovou, mas não teve tempo ou disposição para escrever sobre. Não há hierarquias aqui. E para não parecer uma viagem sem rumo, tudo vem acompanhado de breves considerações cujo único objetivo é alertar os incautos do perigo adiante.

Plumb – Field Music
Smile e Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band são obras ambiciosas, repletas de inspiração ora mística, ora genial, ora insana mesmo. Plumb, apesar de ter o material genético de ambos presente em seus ossos e tecidos, sofreu alterações pela inserção de partes biônicas comandadas por processadores positrônicos. Os dois primeiros são, respectivamente, uma oração e um conceito. Esse álbum do Field Music soa sempre como um projeto científico. Não que isso seja ruim. É fácil perceber que é uma marca registrada. Em tempo: não conhecia a banda até ouvir essa bolacha. Ainda estou desmontando esse ciborgue, disco a disco, em busca de um diagnóstico melhor. Por essa razão, perdoem-me os eventuais equívocos de impressão registrados aqui.

Attack On Memory – Cloud Nothings
Esse disco do Cloud Nothings permanece uma incógnita para mim. Tento ver algo por trás da muralha de gritos e acordes irritadiços, algo além do ranço noventista, algo além da barulheira em si. Não sei. Gosto de guitar bands e, definitivamente, esses caras entendem do que é ser uma. No entanto, permanece a sensação de que tanta intensidade musical esconde um processo de composição muito mais pensado do que sentido, o que nesse caso, pelo menos para mim, é incômodo à beça. Desconfianças à parte, audições contínuas desse disco podem garantir alguma perda auditiva. Considerando a excessividade de paumolescência musical que nos assola, um pouco de barulho despropositado pode acabar não fazendo mal a ninguém.

Provincial – John K. Samson
Provincial é, numa definição canhestra, um multivitamínico leve à base de Neil Young (fase folk e guitarreira) e Elliot Smith, com doses reforçadas de guitarras saídas de algum grupo seminal da década de noventa (é a década da vez, ao que parece). Um disco bom, sobre coisas comuns. Às vezes, comuns até demais. ‘When I Write My Master’s Thesis’ (o nome da música é esse mesmo) sintetiza em título e letra o quero dizer. John K. Samson é dono de outra banda, The Weakerthans, que confesso nunca ter ouvido falar. Ainda não tive tempo de correr atrás, mas a julgar pelo projeto solo do cara…

Paralytic Stalks – of Montreal
Ora desesperado, ora desinspirado, o disco novo do of Montrel alterna momentos de grandeza criativa com outros capazes de fazer o leite azedar. Apesar de se posicionar com distância de Hissing Fauna, Are You The Destroyer?, preferido da casa, Kevin Barnes, capitão desse zepelim desgovernado, registra nesse diário de bordo algumas surpresas memoráveis, como a sequência de faixas que se inicia na genial ‘Spiteful Intervention’ e termina em ‘Malefic Dowery’. A segunda metade do disco é irregular, alternando faixas medianas com outras piores. Ainda assim, com o dirigível em chamas, permanecemos honrosos ao lado do comandante.

American Give Up – Howler
Para aqueles apressados em vestir a casaca dos detratores, o primeiro disco do Howler pode parecer uma tentativa bem sem-vergonha de soar como as bandinhas que iniciaram a década passada chutando as portas do saloon, como o Strokes e o Libertines. No entanto, se você fizer parte do bando de desavisados que, como eu, deixou esse disco rolando inadvertidamente, perceberá que são as nuances que fazem toda a diferença. O Howler soa mesmo como as bandas mencionadas anteriormente (às vezes, até demais), mas, ao contrário de outras que já estiveram na incômoda posição de serem comparados com os salvadores do rock do início do século (Vaccines?), uma aproximação mais forte com as fontes originais, leia-se Ramones e boa parte daquilo que foi feito sob o rótulo do post-punk e garage rock garantem a satisfação com o produto.
na vala da desimportância
janeiro 12th, 2012 § Deixe um comentário

irrelevância é o sobrenome desses caras
Future This, novo dos ingleses do Big Pink, é um álbum higiênico. Isso é praticamente tudo que se pode dizer dele. Não há arestas, nem gorduras. Tudo é limpo e palatável, embrulhado num pacote reluzente de clichês necessários para se enquadrar na novíssima coleção 2011/12 de duos de indie-electro-rock.
Tanta assepsia, no entanto, certamente não impedirá que, em algumas semanas, o álbum caia na mesma vala de desimportância onde jazem trocentos discos semelhantes que, vejam vocês, caíram no ostracismo ainda em 2011. Cada uma das faixas é forte candidata em potencial à trilha sonora de anúncio de perfume (‘Lost Your Mind’ é minha aposta) e nada além. Tudo esquecível, rapidamente esquecível.
O Big Pink engrossa o caldo da nulidade composto por certas bandas e correntes musicais moderninhas. Escondidos por trás de produções escoladas, repletas de referências, experimentalismos e ‘surpreendências’ que podem até tapear os mais ingênuos, eles seguem ansiosos pela próxima entrevista ou sessão de fotos de algum semanário influente, mas sem acrescentar lá grandes coisas.
É provável que Future This seja apenas o primeiro de uma série de discos vindouros em 2012 cuja marca registrada seja essa paumolice envernizada. Uma pré-lista de cadáveres bem embalsamados a vir por aí. Que seja, desde que entre um defunto e outro, venha algo que respeite minimamente o verbete ‘relevância’ do meu dicionário.
diversão protocolar
janeiro 11th, 2012 § 1 Comentário

Uma das coisas mais incômodas em Missão: Impossível – Protocolo Fantasma é a evidente desumanização do protagonista em relação ao episódio anterior da franquia, o que na minha opinião representa um retrocesso para a série. Se J.J. Abrams acertou ao fragilizar um pouco Ethan Hunt a fim de transformá-lo em algo mais parecido com um ser humano, esse capítulo da série volta a caracterizar o herói como um cara destemido o suficiente para escalar um arranha-céu usando somente as mãos, mas incapaz de fazer um único lamento pela morte de um importante aliado.
Nada contra. Sei bem que essa sempre foi a proposta. O chato é que, após ver M:I 3, tive a impressão de que a série tomaria uma direção diferente, um pouco mais preocupada em se aprofundar no personagem principal e menos na quantidade de bombas detonadas e carros destruídos.
Outro aspecto que desaponta é a mais completa ausência de um antagonista. A falta de um adversário à altura das habilidades de Hunt é tão galopante que a coisa mais próxima de um oponente é um fenômeno climático. E, ainda assim, o espião possui faculdades físicas e mentais tão fantásticas que perseguir um capanga, durante uma tempestade de areia, em um carro CONVERSÍVEL (!) parece ser algo tão trivial quanto fazer uma meia embreagem.
Mas é disso que se trata o filme, alguém pode dizer. E é verdade. Talvez eu esteja só sendo bem ingrato, reclamando assim feito uma tia chata. Brad Bird, grandão da Pixar em seu primeiro trabalho live-action, segura a onda e garante a diversão, com o adicional de alguns litros de suor frio advindos da tensão quase ininterrupta. No final das contas, todos os ingredientes que tornaram M:I uma franquia para lá de rentável está lá, tudo bacana, mas sem aquela repaginada necessária para reoxigenar o interesse para uma eventual nova continuação.
no commas for cormac
dezembro 13th, 2011 § Deixe um comentário

Cormac McCarthy
“Ao anoitecer todo o céu para o norte escurecera e o terreno despido que eles trilhavam passara para um cinza neutro até onde a vista alcançava. Eles pararam na estrada no topo de uma elevação e olharam para trás. A tempestade à frente avultava acima deles e o vento soprava frio nos rostos suados. Estavam desmoronados, os olhos baços, em cima das selas e olharam-se uns aos outros. Envolto nas negras nuvens o relâmpago fulgiu mudo como fogo de solda visto através da fumaça de uma fundição. Como se estivessem fazendo consertos em algum ponto corroído da férrea escuridão do mundo. ”
All The Pretty Horses, Cormac McCarthy.